Capítulo 01De sessenta quilos à faixa preta
Daniel Holý não começou como talento. Começou como um cara magrelo do qual os colegas zombavam na cara. Passou sete anos puxando ferro para provar a si mesmo e aos outros que valia alguma coisa — e só então descobriu o grappling.
Aos dezoito eu pesava sessenta quilos e na escola os caras riam na minha cara. Foi aí que falei comigo mesmo: vou mostrar pra vocês. Vou virar uma fera de cem quilos. Aos poucos isso se transformou em esporte de combate — só puxar ferro na academia não serve pra nada. Você fica bonito de camiseta, sim, mas depois não consegue nem correr atrás do ônibus.
Como você entrou no jiu-jitsu?
Eu puxava ferro há um tempo, desde os dezessete mais ou menos. Aos dezoito tinha sessenta quilos. A gozação clássica — você é magrelo, você é um palito. Aí falei comigo, beleza, vou mostrar pra vocês, vou virar uma fera de cem quilos. Sete anos de ralação e cheguei aos noventa. Depois parei de curtir a musculação, então fui procurar onde usar essa força. Em 2011, entrei pela primeira vez na Tiger Gym em Řepy (Praga) — na época uma das maiores academias de esportes de combate de Praga. E foi aí que comecei com MMA.
E como o MMA virou jiu-jitsu?
O MMA estava me destruindo. Eu tinha reuniões de trabalho, não podia chegar com a cara inchada. O jiu-jitsu era mais confortável pra mim — menos pancada, mais controle. Além disso, no grappling descobri rápido que com força você não chega longe. Tem que pensar. Foi isso que me prendeu.
Capítulo 02Por que sou guardeiro
No jiu-jitsu brasileiro existem dois tipos de competidores: o passador agressivo, que pressiona o adversário pra baixo, e o guardeiro — alguém que senta na bunda e deixa o oponente atacar por cima pra depois enrolar ele lá de baixo. Daniel é do segundo tipo — e o motivo não é estético, é puramente prático.
Sou guardeiro porque meu jogo são leg locks. Você entra no ashi garami e no toe hold por baixo — guarda pra mim não é postura nem filosofia, é meu escritório.
O que pra você é o mais importante no jiu-jitsu?
Cabeça, força e agilidade. Nessa ordem. O jiu-jitsu tem centenas de técnicas e você tem que entender de verdade, não só copiar de vídeo. Só uma porcentagem pequena de quem começa chega à faixa preta. O resto desiste no caminho. Justamente porque é duro mentalmente — você tem que aguentar anos fazendo uma coisa em que sempre alguém passa por cima de você.
E por que guarda, em vez de ataque agressivo por cima?
Dois motivos, os dois práticos. Primeiro: meu jogo são os leg locks, e você entra naturalmente no ashi garami e no toe hold por baixo. Se você quer prender o adversário pela perna, a guarda é a posição inicial lógica. O segundo motivo é física — eu sou pesado. Por cima, os caras menores da academia simplesmente escorregam e fogem; por baixo eu controlo melhor com peso e frames. Nas divisões Masters da IBJJF, os heel hooks são proibidos, então o toe hold é meu finalizador principal.
Capítulo 03Um motor que não desacelera
Daniel fala sem rodeios sobre o fato de que o que move o desempenho dele não é o amor puro pelo esporte. É algo mais duro e antigo, vindo da infância — e essa combinação é o que faz dele um competidor que não desiste, mesmo quando vomita de nervoso antes do combate.
O motor foi ligado por uma mágoa antiga. Dezoito anos, magrelo, os caras rindo, eu falo: vou mostrar pra vocês. E ficou. Vinte anos rodando. Sigo provando alguma coisa pra alguém — geralmente pra mim mesmo.
Você mencionou que sempre teve problema com a cabeça. O que isso significava na prática?
Até dois ou três anos atrás eu vomitava antes das competições. Clássico — estresse, medo de perder, medo de decepcionar quem está em volta. Essa pressão geralmente é você que cria. Decidi enfrentar isso justamente me inscrevendo nos maiores torneios, contra os adversários mais duros. Isso me endureceu mentalmente.
Algo mais te ajudou, além da exposição?
Visualização. Uns dias antes da competição eu imagino entrando no tatame, na pesagem, que tipo de adversários vou ter — imagino de propósito caras enormes com orelha de couve-flor, os piores cenários. O cérebro vai se preparando aos poucos pro combate, e a realidade depois é quase sempre mais leve do que o que pintei na cabeça. No Europeu deste ano, na semifinal, peguei um cara que era o quarto do ranking mundial. Achei que não tinha chance. Apertei ele em quarenta segundos.
Técnicas sem palavras
No Instagram, o Daniel ensina em vídeos curtos — sem comentário, só música e técnica pura. Mais de meio milhão de grapplers do mundo inteiro.
Seguir @ragnar_bjj →Capítulo 04Como ensinei o Karlos a passar a meia-guarda
Quando Karlos Vémola (campeão tcheco de MMA, atração principal da Oktagon MMA) se preparava para a revanche contra Attila Végh (campeão eslovaco de MMA, ex-campeão peso meio-pesado do Bellator), ele ia treinar com o Daniel na Jungle. Uma técnica específica daqueles treinos acabou aparecendo na luta, que terminou com um arm triangle.
O Karlos vinha treinar comigo, eu estava ensinando ele a passar a meia-guarda. Aprendeu uns detalhes, aplicou na luta contra o Attila e por meio dessa passagem encaixou o arm triangle que finalizou. Depois mandou um áudio no WhatsApp, isso me deixou feliz.
Com quem mais você trabalha além do Karlos?
Treino o Niko Stedis, lutador de MMA. No mais, dou minhas próprias aulas na Jungle. A vantagem da Jungle é que tem entre duzentos e trezentos membros e em volta de mim estão caras como Yakuza ou Honza Vlasák — gente que ganha torneios mundiais. Comparado com o Yakuza eu sou peixe pequeno na cena tcheca de jiu-jitsu, ele é um fenômeno absoluto. Não preciso viajar muito pra outros lugares, os treinos da Jungle me bastam.
Quão difícil é encontrar parceiros de treino de qualidade no seu nível na República Tcheca?
Dá pra contar nos dedos. O problema da cena tcheca de grappling é o ego — os caras protegem suas academias como bolhas, raramente cruzam pra treinar uns com os outros. Por isso, quando viajamos pros grandes torneios internacionais, no país tem mais de sessenta faixas pretas e nós lá costumamos ser três. Quem quer evoluir tem que sair da zona de conforto. Sem isso não tem jeito.
Capítulo 05Instagram sem palavras
Mais de meio milhão de seguidores do mundo todo — e o Daniel não fala uma palavra nos reels. É uma estratégia consciente, construída em cima de como funciona o algoritmo dos vídeos curtos e de como se aprende técnica de BJJ visualmente.
Nunca falo nos reels. Vídeo curto, música, técnica limpa. Quanto mais você explica, mais rápido o pessoal desliza. Além disso, sem fala, funciona em qualquer idioma. Por isso me seguem mais lá fora do que na República Tcheca.
Como pode ser que na República Tcheca não te conheçam, e lá fora sim?
A República Tcheca é um lago pequeno. Jiu-jitsu aqui não é mainstream como o MMA. E meus reels têm legenda em inglês, não tem fala. O algoritmo pega isso e cola mais no Brasil, nos EUA ou no resto da Europa do que em casa.
O que do que você faz online um iniciante absoluto consegue usar?
Nem todas as técnicas são complicadas. Tem coisas que você entende de primeira. As técnicas mais avançadas pegam melhor quem já está há alguns anos no jiu-jitsu — conhece a fisiologia, sabe onde estão as artérias, onde apertar. Uma coisa que adotei recentemente: testo tudo antes de gravar. Não posto nada que não funcione. Se não estrangula, não quebra ou não alavanca, simplesmente não vai pro canal.
Capítulo 06Final 2024 — joelho ou medalha
Estreia nas faixas pretas. Final do Campeonato Europeu IBJJF. O Daniel se viu numa situação em que num segundo estava torcendo o tornozelo de um brasileiro e no seguinte ouviu o estalo no próprio joelho. A decisão de continuar ou bater veio numa fração de segundo.
O brasileiro estava com o tornozelo estalando e eu esperava que ele batesse. Não bateu. Pegou em mim a mesma chave, e eu tinha esquecido completamente da minha perna. Quando ouvi o estalo no joelho já era tarde. Bati — mas a lição é que eu deveria ter sentido a rotação três segundos antes.
Por que o brasileiro não bateu quando o tornozelo dele estava estalando?
Brasileiro tem tornozelo de borracha — estourado, rasgado, acostumado. Eu estava focado em finalizar ele e esqueci completamente da minha perna. Ele pegou em mim a mesma chave, só que em mim a rotação foi pro joelho. Na hora em que estalou, a luta já estava acabada de qualquer jeito. O tap foi só controle de dano antes de algo pior — um ano de reabilitação de joelho contra umas semanas de tornozelo. Isso não é razão vencendo o ego, é contabilidade depois do fato.
É realmente difícil bater de verdade nesse momento?
É difícil. A cabeça grita que você está vencendo, que está a um segundo da medalha. Eu só bati quando já tinha estalado — e é exatamente isso que quero fazer melhor da próxima vez. Ler os sinais na articulação antes, não depois do estalo. Tem cara que se deixa apagar num estrangulamento porque está a segundos do fim do round e na frente nos pontos — apaga, acorda, ganha. Fisicamente você se recupera. Ligamento de joelho rompido é outra história.
Capítulo 07O que é a Ragnar Academy
Depois de quinze anos no tatame, o Daniel está abrindo uma academia online. A filosofia declarada é simples: nada de marketing, nada de conteúdo por conteúdo. Só as coisas que decidem uma luta.
A Ragnar Academy é o que eu mesmo gostaria de ter recebido quinze anos atrás. Sem enrolação de marketing. Só os detalhes que decidem quando você está em frente a alguém que quer te bater.
Pra quem é a academia?
Pra quem está sério com a ideia de melhorar. Não miro no iniciante absoluto — pra isso existem clubes e professores pelo país inteiro. Eu miro em competidores, hobbistas avançados e professores que procuram a estrutura por baixo do meu jogo de leg locks. Quero mostrar a geometria, as condições, o controle — não só o set-up e o finish. Os caras que me escrevem no Instagram a longo prazo, esse é exatamente o público.
No que é diferente dos cursos online que já existem no mercado?
Não quero me comparar com ninguém em específico. Só posso dizer o que coloco eu. Coisas que funcionam pra mim em torneios da IBJJF — incluindo as variações que existem por causa das restrições de regra no Masters. Transições específicas de ashi garami, detalhes de toe hold, armadilhas de guarda. E vou colocar conteúdo de mindset. A psicologia antes da luta, visualização, como lidar com a derrota. Isso é tão importante quanto a técnica.
Qual é o próximo objetivo de competição?
Europa. O ouro, finalmente. E depois Las Vegas, o Mundial. Esse seria bonito de pegar.
Esta entrevista é um corte editorial montado a partir dos podcasts tchecos publicamente disponíveis TATAMI BJJ (episódio #12 com Daniel Holý) e Duše bojovníka (Rádio Prostor, apresentado por Adéla Konečná, 2025). Perguntas e respostas foram unificadas estilisticamente para fluência de leitura; a substância e a autenticidade da voz foram preservadas.
Contexto sobre as credenciais do Daniel: Fernando Araujo concedeu a faixa preta ao Daniel na Jungle BJJ Praga. As medalhas IBJJF dele incluem ouro no Europeu No-Gi e três pratas com kimono (IBJJF Europe, divisões marrom e preta). A final das faixas pretas em 2024 terminou em derrota por uma lesão de joelho sofrida na própria final.
Regras IBJJF (legalidade dos heel hooks no Masters e com kimono) — vigentes na data de publicação. Consulte sempre a versão atual do rulebook IBJJF.
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